História da Sobramfa

Índice
1.

A importância de uma reflexão sobre o passado.

2. A Pre-História. (1988-1991)
3. A Fundação da SOBRAMFA
  3.1 Encontro Sobramfa 1992
  3.2 I Congresso Brasileiro de Medicina de Família
4. Integração com a Associação Paulista de Medicina
  4.1 Reuniões Mensais do Departamento
  4.2 Elaboração de um Projeto de Residência Médica em Medicina de Família
5. A SOBRAMFA e os Acadêmicos (1997)
  5.1 Os Congressos Acadêmicos Anuais e as Jornadas de Medicina de Família
  5.2 As Ligas de Medicina de Família
  5.3 O Projeto PRAMEF-21 (1998)
  5.4 Reuniões de Acadêmicos na APM.
  5.5 Pesquisa e Trabalhos Científicos
  5.6 Questões emergentes do trabalho com acadêmicos
7. SOBRAMFA na Universidade
8. Concluindo sobre as reflexões
"A história, o presente e as perspectivas futuras na sistematização de um Estilo."
Pablo González Blasco

"A vida se compreende olhando para trás e vive-se de cara ao futuro"
Kierkegaard

1. A importância de uma reflexão sobre o passado. Os passos da história. [Topo]
 
O homem é um ser biográfico, acumula história sobre si mesmo. Dai a importância de refletir sobre o seu passado, encontrar as raízes da sua ação para compreender quem ele é, onde está situado, e para aonde caminha. A reflexão sobre o passado é condição necessária de crescimento, por ser também meio de conhecimento próprio.

Querer compreender e saber quem somos e para onde caminhamos e parte do trabalho do médico de família, um profissional centrado na atenção do ser humano. É tema freqüente nas suas pesquisas, e no ambiente acadêmico onde atua como professor, atento ao processo educacional dos futuros médicos. "A Medicina de Família tem a missão de olhar para trás, enquanto caminhamos para a frente", comentava-se no último Congresso da STFM (Society of Teachers of Family Medicine)

O médico de família, deve ser também um humanista e saber aproveitar os recursos que as humanidades lhe trazem para melhor conhecer o ser humano de quem deverá cuidar. E aprende a conhecer-se a si mesmo nesta reflexão sobre a sua biografia. Os clássicos nos advertem da importância desta atitude, não apenas para o médico, mas para qualquer ser humano . "Qualquer que seja a extensão do teu saber, faltar-te-ia sempre para atingir a plenitude da sabedoria, o conhecimento de ti mesmo. Conheces tu todos os segredos do Universo, e as regiões mais distantes da terra, e as alturas do firmamento, e os abismos do mar? Mas se tu te ignoras fazes-me pensar no arquiteto que quisesse construir sem fundações: em lugar de edifício, ele só lograria amontoar ruínas. Tudo o que acumulares fora de ti mesmo não resistirá ao vento mais do que um monte de pó. Não, não merece o nome de sábio quem para si mesmo o não é"

Cabe pois uma reflexão sobre o que foi feito na Sociedade Brasileira de Medicina de Família nestes anos. A atuação concreta apontará também o que realmente somos, o os objetivos que encerra o nosso ideal. "Não é apenas analizando-se mas atuando como se conhece o homem. Trata de fazer o teu dever e saberás rapidamente o que há em ti." -dizia Goethe. E outro filósofo, aponta nossos ideais como o sinal revelador de quem nós somos, e da importância de viver em presente, levando em consideração a biografia vivida e as possibilidades que o futuro nos apresenta. "O caráter de cada indivíduo poderia definir-se pela classe de objetos para a qual tende espontaneamente a sua atenção. Um inclina-se para arte, outro para a política, outro para os prazeres como fatalmente as pedras gravitam para o centro da terra. A atenção de alguns é retida pela lembrança, pelas coisas pretéritas e vivem presos ao passado, enquanto outros somente percebem o futuro, são almas que possuem asas da utopia que não lhes deixam pousar sobre o presente e o atual.

Na reflexão perfila-se a meta que se persegue, desmascara-se o ativismo febril que corre sem saber aonde quer chegar, talvez incitado por compromissos passageiros, oportunistas. É refletindo onde se adquire a maturidade própria de quem sabe o lugar onde está situado, o que deve mudar e corrigir, para atingir a meta que se propõe. A irreflexão, atitude própria da imaturidade, não poupa o ambiente acadêmico, já que é preciso mais do que simples produção, ou até boas intenções, para situar-se com realismo na vida, na ciência e na arte, para enfrentar com serenidade e clareza o futuro. As palavras de uma escritora atual, que romanceia os conselhos de uma avó, mulher vivida, para a neta adolescente e rebelde, exprimem isto de modo vital: "Você ficava terrivelmente aborrecida quando (eu) lhe dizia que, afinal de contas, perder algum tempo não tinha a menor importância. Você chegou ao máximo da sua irritação, no entanto, no dia em que eu disse que a vida não é uma corrida, mas um tiro ao alvo: o que conta não é a economia de tempo, senão a capacidade de encontrar um objetivo"

A reflexão nos coloca, finalmente, diante da necessidade de retificar o rumo, nos arranca da miragem de quem vive num verdadeiro fazer de conta e faz projetos mas não apura os resultados, podendo chegar a pensar que o projeto já é uma realidade. Esse é o melhor modo de não progredir: pensar que se atingiu o objetivo. Novamente utilizamos os filósofos para esclarecer esta idéia. "Se de tanto olhar o projeto que de nós mesmo temos acabamos por esquecer que ainda não o cumprimos, acabaremos por acreditar que já atingimos a perfeição. E o pior disto não é o erro que isto supõe, mas que esta atitude impede o verdadeiro progresso. Não existe maneira mais certa de não melhorar do que pensar que somos ótimos"

 
2. A Pre-História. (1988-1991) [Topo]
 
Em 1988 um grupo de profissionais que militavam em diversas especialidades médicas decidiram criar um espaço profissional para, sem deixar de prestar os serviços médicos que já vinham desenvolvendo como especialista, ter a oportunidade de refletir sobre esse estilo médico que objetiva, em primeiro lugar, o paciente que procura ajuda. Foi-se criando na prática um modo de abordar o paciente como um todo e, naturalmente, os desdobramentos de atendimento à família. Os especialistas, dos quais sempre precisamos, eram também convidados para discutir esse tema emergente –uma medicina humana, uma medicina centrada no paciente e não na doença- e esses profissionais colaboraram na construção de este modelo. Atendimento conjunto de casos, visitas domiciliares junto com os especialistas, e os espaços criados para a reflexão conjunta foram o terreno fértil onde, aos poucos, foi se delineando este modelo médico que anos depois tentaríamos estabelecer de modo institucional.

Assim, os Encontros Anuais, nos anos 1998-1991, abordaram temas como "O Direito à vida", "O aborto". "O paciente terminal" "Esterilidade conjugal; abordagem ética no diagnóstico e tratamento", para os quais foram convidados especialistas que participavam da preocupação de construir um modelo médico que atendesse simultaneamente aos aspectos técnicos e avanços científicos, assim como à dimensão humana da medicina, e a postura ética do médico. No último destes encontros –1991- decidimos colocar nossa experiência desses anos de trabalho. Esse encontro levou o nome de "Medicina de Família. Experiência atual e perspectivas futuras". A conclusão desse encontro foi a vontade dos colegas presentes em constituir-se como Sociedade. Alguns meses depois nascia a SOBRAMFA – Sociedade Brasileira de Medicina de Família.

 
3. A Fundação da SOBRAMFA. Os primeiros passos (1992-1993) [Topo]
 
No dia 24 de Fevereiro de 1992 ficava constituída a SOBRAMFA, Sociedade Brasileira de Medicina de Família mediante assembléia de Fundação, com a presença de colegas de várias especialidades que foram acompanhando o trabalho e as discussões nos anos anteriores. Iniciou-se então a discussão de algo que sabíamos o que era, mas procurando já delinear os contornos, sistematizar. Foram procurados contatos internacionais, descobriu-se STFM, uma Sociedade Americana de Professores de Medicina de Família, preocupada no ensino e na sistematização deste modelo médico, que embora sempre praticado, exige nos tempos atuais uma sistemática própria. Contatou-se a Wonca, Organização Mundial de Médicos de Família, e a Associação Canadense de Medicina de Família, que nos ajudou com suas publicações -a revista Canadian Family Physician- desde o início. No entanto, não houve espaço para ampliar os contatos internacionais e dar seguimento. Afinal a SOBRAMA reunia um conjunto de profissionais, com vários anos no mercado de trabalho, preocupados em construir algo que cada vez mais notávamos como necessário, Era, sem dúvida, um trabalho extra, que precisava ser desenvolvido em paralelo com as atividades cotidianas de cada um. Os esforços iniciais foram uma pequena amostra do que o futuro prepararia. As palavras de um médico humanista, freqüentemente citado nas discussões foram também um ânimo para o esforço. " O certo é que aquilo de que um homem realmente precisa não é de um estado isento de toda e qualquer tensão, senão de uma certa tensão, uma sadia dose de tensão, aquela dosada tensão que lhe provocam no ser as exigências e solicitações de um sentido".
 
3.1 Encontro Sobramfa 1992 - "Medicina de Família: situação atual e perspectivas de atuação. A formação do médico de família". Os primeiros conceitos. [Topo]
 
Chama a atenção, quando se procuram os temas tocados nesse 10 Encontro, Novembro 1992, alguns conceitos emergentes. Falou-se então do por quê o médico de família, de qual seria o seu papel dentro do universo que nós, como profissionais com anos de experiência, conhecíamos. Qual era realmente o vazio que queríamos preencher, e como fazê-lo? Algumas conclusões deste Encontro falam por si só. " Fazer com que as doenças não façam esquecer o paciente. Recuperar a perspectiva do paciente. O médico de família –comentava-se- tem algo de explorador que penetrando nas florestas variadíssimas das especialidades médicas e das patologias correlatas, esforça-se para que "as árvores não lhe impeçam de ver o bosque". Um bandeirantismo médico à procura de algo tão simples e complexo como é o homem, e no caso, o homem que está doente. Fazer com que as doenças, na sua dimensão científica -diagnóstico, tratamento e prognóstico- não façam esquecer o doente, é a meta almejada nesta procura de um verdadeiro "ovo de Colombo".

Ao mesmo tempo, aparecia claro que o essa figura do Médico de Família deveria ser um elemento integrador do desajuste que a doença produz. Alguém que consegue juntar todas as queixas do paciente, que é mais do que simples sintomas, e traça o programa a seguir para cuidar do paciente. Isto fica claro quando se vem as coisas do ponto de vista do paciente, que é no fundo a quem pretendemos servir com o exercício da Medicina. Resultava cada vez mais evidente que existe um longo caminho, uma distância que o paciente acometido por uma doença precisa percorrer até chegar no especialista adequado, no tempo certo, e que essa distância não poderia ser salva sem ajuda.

A expressão antiga, médico de cabeceira, pareceu-nos adequada para definir a função do Médico de Família. Como um livro de cabeceira, que se consulta habitualmente para tudo, também o médico deveria ser como um vademecum –vai comigo- que se adapta as necessidades do paciente, e a quem o paciente pode se dirigir no dia a dia, para as suas consultas de saúde. Uma porta de entrada para a atenção à saúde. Uma outra questão também ficava em destaque: o paciente, tendo esse médico de referência, sabendo que alguém cuida dele, depositando a confiança e, guiado pelos seus conselhos, sente-se amparado na nova situação que a vida lhe depara: estar doente. Isso é fator fundamental na luta do paciente contra a doença.

Surgia assim uma tentativa de sistematização das características dessa figura. Um profissional que deveria reunir um conhecimento amplo e profundo da Medicina Interna (Clínica Geral) e do manuseio das principais patologias da Clínica Médica. O Médico de Família não é aquele que sabe um pouco de algumas coisas, mas é necessário saber bastante de tudo; do contrário resulta a incompetência para a função desejada. Ao mesmo tempo deveria ser um profissional moderno que procurasse uma permanente atualização nos modernos métodos diagnósticos e nos avanços terapêuticos para conduzir os casos corretamente, oferecendo ao paciente o melhor possível. Não é portanto, alguém anacrônico, parado no tempo. Em terceiro lugar, deveria adquirir uma sólida formação humanística e cultural que permite conservar a visão do homem no seu conjunto, integrado no meio social e familiar. Isto lhe permitiria levar em conta as peculiaridades do paciente. Uma relação médico-paciente proveitosa depende em grande parte desta preparação do médico que deve ser, além de cientista, um acadêmico, um universitário: um homem de visão ampla. Finalmente destacou-se como características o interesse e experiência na avaliação e tratamento de pacientes no meio domiciliar. A Visita Médica Domiciliar é prática inseparável do Médico de Família. O acompanhamento de doentes crônicos no seu domicílio, fornecendo uma orientação completa -nutricional, comportamental e medicamentosa- é fonte contínua de solicitações em Medicina de Família.

Lembrou-se o que entendíamos por humanismo médico. O médico humanista não é aquele que pretende dar soluções filosóficas às doenças, permanecendo alheio ao progresso técnico. Humanismo é não perder de vista, nunca esquecer que o seu objeto de trabalho é um homem, no caso, um homem doente. Humanista é quem não esquece nunca da condição humana do paciente, fazendo disto um norte para sua atuação profissional. Muito bem resume um conhecido psiquiatra este novo desafio para o qual o médico deve estar preparado. "A medicina enfrenta-se hoje com a tarefa de ampliar sua função. Num período de crise, como o que experimentamos hoje em dia, os médicos devem cultivar a filosofia. (...) Os médicos se deparam hoje com questões que não são de índole médica apenas, mas filosófica e para as quais mal estão preparados. (...)É possível ser médico sem ocupar-se com estas questões; mas então aconteceria o que P.Dubois afirmava com relação a este caso: que o médico distingue-se do veterinário apenas numa coisa: na clientela."

Concluíamos naquele Encontro que a figura do Médico de Família traz benefícios substanciais para o paciente. O primeiro e mais importante, é ter um profissional como médico de referência para os problemas diários de saúde, patologias crônicas e agudas, do paciente ou dos familiares. Nestes casos, foi se criando a deformação de procurar o Pronto Socorro pela falta do médico de referência que pudesse assumir e orientar o caso. Impõe-se a necessidade de que o médico consulte -estude- o paciente como um todo, em unidade, numa abordagem clínica geral e completa. Atua deste modo o médico como elemento unificador na desorientação que os variados sintomas produzem no paciente. Estabelece as hipóteses diagnósticas principais, programa os exames complementares e prescreve, seguidamente, a terapêutica adequada em cada caso. Finalmente coloca hierarquicamente os diversos problemas médicos que acometem o paciente, estabelecendo a seqüência devida para que os tratamentos obedeçam as prioridades corretas e às peculiaridades do paciente. Quando necessário, solicita a ajuda do especialista, para um aspecto determinado. Esta é a figura do Médico de Família, que, cada vez mais, vai tornando-se necessária e cuja reabilitação propomos.

Aquilo que poderia parecer uma crítica ao sistema de atendimento médico vigente, e do qual nós participávamos diariamente, deveria ser visto como uma tentativa de construir um modelo melhor, apropriado, ao qual queríamos nos adaptar. As palavras de Gregório Marañón, citadas naquela ocasião, também exprimem esta mesma idéia: "Sentiria muito que alguém concluísse que sou irrespeitoso com a Medicina, e que sou pessimista sobre o seu presente ou seu futuro. Eu respeito a Medicina, porque a amo; e o amor é a fonte suprema do culto, no humano e no divino. Mas o amor é também, e deve ser, crítica. Somente quando esmiuçamos o objeto amado, retirando o que tem de deletério, acertamos a encontrar, lá no fundo, o que tem de imperecedouro. Aquele que fala valentemente dos defeitos da sua pátria é o melhor patriota, e quem vai polindo com censuras justas sua profissão, esse é quem a serve com toda plenitude"

 
3.2 I Congresso Brasileiro de Medicina de Família – Agosto 1993, São Paulo. [Topo]
 
Em Agosto de 1993, organizou-se o Primeiro Congresso Brasileiro de Medicina de Família. Os conceitos que tinham já sido apontados no l0 Encontro de Novembro de 1992, foram firmados e desenvolvidos ao longo de várias palestras e debates neste Congresso que também contou com a presença de muitos especialistas colaboradores. Apontava já, na programação do Congresso, um empenho por reforçar a formação geral do médico, na tentativa de prepará-lo para o que é hoje uma atividade consagrada da Medicina de Família: a Atenção Primária em Saúde.

Posteriormente, for enviada uma carta ao Presidente do Conselho Federal de Medicina comunicando os objetivos da SOBRAMFA, e o trabalho que estava sendo desenvolvido. Recolhemos a seguir um parágrafo significativo desta carta:

"A SOBRAMFA- Sociedade Brasileira de Medicina de Família, foi fundada em 1992 na cidade de São Paulo, com o objetivo de recuperar a figura do Médico de Família através da formação acadêmica. Entendemos por Médico de Família ao profissional que reúne amplo conhecimento científico, que procura permanente atualização nos meios diagnósticos e terapêuticos e que possui formação humanística, antropológica e ética podendo deste modo abordar o paciente -cada paciente- na sua integridade. A denominação de Médico de Família foi a mais adequada que encontramos para, trazendo de volta essa figura que o paciente procura mesmo sem sabê-lo, significar o profissional que exerce a Medicina em toda sua plenitude: aliando ciência e arte."

 
4. Integração com a Associação Paulista de Medicina. Comitê Multidisciplinar de Medicina de Família (1993) [Topo]
 
Em 1993 foi criado o Comitê Multidisciplinar de Medicina de Família na Associação Paulista de Medicina, por solicitação dos membros da Diretoria de SOBRAMFA, que passaram a integrar também a Diretoria desse Comitê.
 
4.1 Reuniões Mensais do Departamento
 
O Comitê Multidisciplinar de Medicina de Família passou a fazer reuniões mensais de departamento, na APM, com o intuito de criar um espaço para a discussão e de adquirir um preparo para essa nova tarefa. Foram convocados os colegas que estavam trabalhando junto à SOBRAMFA nestes anos, a maioria deles especialistas, para as apresentações mensais, seguidas de debate. Em anexo consta o temário desenvolvido nos anos 1994 a 1997.

1994 –Seminários de Antropologia Médica
Bioética: à procura de uma definição. Campos de atuação. Visão antropológica
A atenção integral ao paciente: a medicina Humanizada
Bioética da Dor
Bioética da sexualidade
Responsabilidade Civil do Médico
Bioética dos transplantes. Integridade corporal
Bioética e Eugenesia

1995- Seminários de Antropologia Médica
Bioética na AIDS
Fecundação Artificial
Segredo Profissional
Experimentação Humana
Bioética da Vida Nascente
A verdade perante o paciente
Bioética da vida que declina

1996- Antropologia Médica e Bioética
Dignidade Humana e Bioética. Razões para a Bioética
Medicina Paliativa: atenção ao paciente terminal
A ética e os médicos
Dor, sofrimento e qualidade de vida
Manipulação de embriões e terapêutica genética.
Pacientes em estado vegetativo permanente.
Os profissionais não médicos e sua relação com os médicos.
A enfermagem e a humanização do hospital.
Relação Médico Paciente: direito do paciente à informação.

1997 – Temas de Medicina de Família
O mundo da Medicina de Família
Dor, sofrimento e qualidade de vida
Tecnologia avançada e suas implicações na Medicina de Família
Peculiaridades do Diagnóstico e do Tratamento no Domicílio
Médico de Família diante das Medicinas Alternativas
Aspectos multiprofissionais nas instituições para internações prolongadas
Medicina de Família e Adolescentes
papel da Medicina de Família na dinâmica familiar de pacientes tóxico-dependentes

 
 
4.2 Elaboração de um Projeto de Residência Médica em Medicina de Família [Topo]
 
Por solicitação da Diretoria da APM, no ano 1994 o Comitê Multidisciplinar de Medicina de Família encarregou-se de elaborar um projeto de Residência Médica em Medicina de Família. O projeto aguardaria o momento apropriado em que as Faculdades de Medicina poderiam habilitar-se para implementá-lo academicamente.
 
4.3 Atuação externa junto a APM [Topo]
 
A SOBRAMFA e o Comitê Multidisciplinar de Medicina de Família iniciaram sua participação em Cursos Institucionais. Assim os Fórum Paulista de Atendimento Domiciliar, promovidos pela APM (1994, 1995) e pela Prefeitura de São Paulo (Curso Multiprofissional de Assistência Domiciliar, 1996). Paralelamente, várias Faculdades de Medicina começaram a solicitar a colaboração da SOBRAMFA, para cursos extra-curriculares, conferências e Congressos Acadêmicos, centrados em temas de Medicina de Família. (FMUSP, 1994; UELondrina, 1995; UNICAMP, 1996; UNISA, 1996; Pouso-Alegre, 1996; PUC-Sorocaba, 1997; Jundiai 1998; Santos 1998; ABC, 1998; Unifesp, 1998; Unesp-Botucatu, 1998; Catanduva, 1999). As constantes solicitações por parte dos estudantes de Medicina, fez com que a SOBRAMFA e o Comitê Multidisciplinar de Medicina de Família, dirigi-se o melhor dos seus esforços ao ambiente de formação acadêmica. Inaugurava-se deste modo um novo e promissor âmbito de atuação.
 
5. A SOBRAMFA e os Acadêmicos (1997) [Topo]
 
A partir de 1997, a SOBRAMFA voltou-se para o meio acadêmico atendendo as solicitações que dele provinham. Deste modo iniciaram-se atividades coordenadas pelos próprios estudantes de Medicina interessados em Medicina de Família, e foi constituída a Diretoria Acadêmica da SOBRAMFA. Uma série de trabalhos decorreram da criação desta Diretoria Acadêmica
 
5.1 Os Congressos Acadêmicos Anuais e as Jornadas de Medicina de Família [Topo]
 
1997 - 1º Congresso Acadêmico de Medicina de Família, São Paulo. "Bases de Assistência à Família"

1998 - 2º Congresso Acadêmico de Medicina de Família, São Paulo. "O paciente e a família perante a doença. Uma abordagem interativa"

1998 - 1ª Jornada Acadêmica de Medicina de Família, São Paulo "As expectativas do estudante de Medicina, protagonista da sua formação"

1999 - 3º Congresso Acadêmico de Medicina de Família, São Paulo. "A Medicina de Família: um caminho para humanizar a Medicina"

1999 - 2ª Jornada Acadêmica de Medicina de Família, São Paulo "Uma reflexão no processo de aprendizado. As experiências e o futuro"

2000 - 4º Congresso Acadêmico de Medicina de Família, São Paulo. "Medicina de Família; à procura de um estilo médico"

2000 - 3ª Jornada Acadêmica de Medicina de Família, São Paulo. "Por que o paciente nos procura"

2001 - 5º Congresso Acadêmico de Medicina de Família, São Paulo. "Em busca da Arte Médica"

2001 - 4ª Jornada Acadêmica de Medicina de Família, São Paulo. "Caminhos de continuidade na Medicina de Família".

2002 - 6º Congresso Acadêmico de Medicina de Família, São Paulo. "Despertando para o questionamento dos Estudantes".

2002 - 5ª Jornada Acadêmica de Medicina de Família, "Inserindo o estudante na realidade da Medicina de Família".

2003 - 7º Congresso Acadêmico de Medicna de Família, Atibaia - SP. "Cuidando de pessoas: o idealismo prático da Medicina de Família".

2003 - 6ª Jornada Acadêmica de Medicina de Família, "Compartilhando experiências e integrando conhecimentos".

2004 - 8º Congresso Acadêmico e Internacional de Medicina de Família, Atibaia - SP. "Novos rumos, novos valores: contribuindo para a saúde do Brasil".

2005 - 9º Congresso Acadêmico e Internacional de Medicina de Família, Embú - SP. "Congregando lideranças na vocação de cuidar".

2006 - 10º Congresso Acadêmico e Internacional de Medicna de Família, Embú - SP. "Celebrando uma década, construindo o futuro".

 
5.2 As Ligas de Medicina de Família [Topo]
 
A atuação da SOBRAMFA no meio acadêmico, através de conferências e cursos, aliado aos Congressos Acadêmicos Anuais, despertou entre os próprios estudantes a necessidade de uma movimentação intra-universitária, adaptada às peculiaridades de cada faculdades, com o desejo de que houvesse uma continuidade nos trabalhos durante o período de formação acadêmica. Criaram-se assim as Ligas de Medicina de Família em várias faculdades, também supervisionadas pela SOBRAMFA (Unisa, FMUSP, PUC-Sorocaba, FM Jundiaí).
 
5.3 O Projeto PRAMEF-21 (1998) [Topo]
 

O PRAMEF 21- Projeto Acadêmico de Medicina de Família para o século XXI, é uma iniciativa pioneira da SOBRAMFA, criado em 1998 que se propõe utilizar os recursos e a abordagem da Medicina de Família como instrumento educacional complementar na formação geral do médico. Este Projeto é supervisionado por Médicos da SOBRAMFA, e integra estudantes de várias Faculdades de Medicina do Estado de São Paulo (UNISA, Jundiaí, PUC-Sorocaba, UNIFESP, ABC, Santos). É, pois, um projeto educacional, que possui as seguintes características:

  1. Integração teórico-prática dos conhecimentos aprendidos nas escolas médicas, objetivando-os na sua aplicação ao paciente concreto. Um aprendizado da Medicina Centrada no Paciente, que é o modelo atual implantado nos serviços de ponta de Medicina de Família .
  2. Suporte teórico, através das atividades da SOBRAMFA dirigidas a acadêmicos (Congressos, Jornadas, Reuniões Periódicas no Comitê Multidisciplinar de Medicina de Família na Associação Paulista de Medicina), com discussões amplas entre os alunos, para apurar e perfilar os modelos de atuação do médico de família.
  3. Integração longitudinal entre alunos de anos diferentes, facilitando as habilidades didáticas e melhorando a comunicação, elementos imprescindíveis no Médico de Família.
  4. Integração entre alunos de faculdades diferentes, atendendo a um projeto Inter-Institucional, o que permite criar modelos flexíveis e complementares do curriculum próprio de cada escola médica.
  5. Formação continuada e longitudinal no atendimento médico, permitindo o aprendizado da construção do vínculo médico-paciente, mediante o acompanhamento do paciente na sua realidade biográfica.

O PRAMEF consta de dois tipos de atividades, necessariamente complementares:

  1. Ambulatório Acadêmico de Medicina de Família.
    Este ambulatório está composto por estudantes de Medicina, de 30 e 40 ano, selecionados pelo Coordenador Acadêmico da SOBRAMFA, pertencentes a várias faculdades de Medicina do Estado de São Paulo O ambulatório é supervisionado por um médico coordenador que atende os pacientes em conjunto, discute os casos, conduz as discussões e coordena as reuniões teóricas através de bibliografia adequada e artigos de atualização publicados em revistas médicas de prestígio reconhecido, assim como em textos próprios de Medicina de Família. Está prevista a integração de alunos do 1o e 20 ano que acompanharão as atividades e serão os responsáveis pela Farmácia, medicação e facilitarão as informações da pós-consulta. Os estudantes de 50 e 6o ano participam como monitores.
  2. Suporte teórico através discussões, palestras e cursos de Medicina de Família.
    São as atividades de formação continuada da SOBRAMFA, nas quais os integrantes do PRAMEF, devem-se inserir de modo obrigatório, já que é preciso uma metodologia própria para desenvolver a Medicina de Família, não havendo possibilidade de ser abordada amplamente nas discussões do ambulatório que são, principalmente, centradas no caso do paciente.
 
5.4 Reuniões de Acadêmicos na APM. [Topo]
 
A partir do ano 1998, as reuniões mensais do Comitê Multidisciplinar de Medicina de Família da Associação Paulista de Medicina foram coordenadas por acadêmicos, também responsáveis pela apresentação. Estimulou-se deste modo a capacidade de comunicação e de pesquisa entre os estudantes, que devem ser protagonistas do próprio processo educacional. Os temas que foram abordados constam em anexo.

1998- Experiências Acadêmicas
Os limites do relacionamento profissional: a intimidade, o distanciamento, o respeito e o segredo profissional.
Ajudando a família a lidar com a morte.
Expectativas do paciente e família quanto ao atendimento médico: experiências em sala de espera.
Perfil atual dos serviços para internação prolongada: indicadores de excelência para o paciente e a família.
Consentimento informado: o quanto o paciente e família devem saber sobre a doença.
Paciente e a família no hospital: estranho no ninho.
Dor, sofrimento e qualidade de vida.
Visita domiciliar: elementos integrantes para um atendimento satisfatório.

1999- Educação Médica e Humanização
Experiências na relação médico-paciente no estudante de medicina. Modelos para o aprendizado.
Revisão bibliográfica e atualização em Medicina de Família.
As expectativas do estudante de Medicina. O que se pode esperar da faculdade?.
As humanidades na formação do estudante de Medicina. Apresentação de um projeto (Parte I).
A ética e o estudante de medicina: um formação necessária.
Como avaliar o perfil humanístico do profissional de saúde?.
Modelos de aprendizado no ensino médico: procurando a personalização.
As humanidades na formação do estudante de Medicina. Discussão do projeto e resultados.( Parte II).

2000 –Medicina de Família: um modelo de aprendizado médico
Aprendendo com os nossos ancestrais: abordagem da antiga figura médica.
A medicina de família hoje: modelos e formas de atuação.
A postura atual dos pacientes.
Assuntos emergentes: adesão ao tratamento.
Qualidade de vida: conferindo sentido à doença.
Tentativa de adaptação na formação médica: um médico de família que se auto-constrói.
Assuntos emergentes: custo/benefícios na medicina de família.

 
5.5 Pesquisa e Trabalhos Científicos [Topo]
 
Com a inserção dos acadêmicos no trabalho da SOBRAMFA, começou-se a desenvolver um trabalho de pesquisa em Medicina de Família, e surgiram vários trabalhos que foram apresentados em Congressos Acadêmicos, obtendo qualificações de destaque, particularmente na área de Educação Médica

"O exemplo do docente: uma avaliação dos acadêmicos" (1o lugar –COMU, USP, 1999)
"O valor dos recursos humanísticos na educação médica: literatura e cinema na formação do estudante de medicina" (2o lugar –COMU, USP, 1999)
"Acompanhando atividades profissionais em medicina de família: um modelo de aprendizado em atenção primária" (1o lugar –COMU, USP, 2000)
"A relação professor-aluno frente ao paciente terminal: avaliação qualitativa de uma experiência" (2o lugar –COMU, USP, 2000)

 
5.6 Questões emergentes do trabalho com acadêmicos. [Topo]
 
Algumas questões surgem decorrentes do trabalho com os acadêmicos. Enunciaremos as principais, pois a discussão de cada uma delas exigiria um desenvolvimento por demais extenso.
A Motivação do estudante.
O docente como exemplo de aprendizado.
Acompanhamento real: tutorias.
Integração de conhecimentos mediante a atuação prática perante o paciente.
Simultaneidade no aprendizado.
O aluno como professor de outro aluno: "a linguagem (DOS) própria".
Formação qualificada em Atenção Primária.
Acompanhamento longitudinal do paciente: saber criar vínculo.
Gerenciamento do caso: atuação junto aos especialistas.
Formação de futuros professores: esquemas de comunicação.
Educar é mais do que treinar: criar atitudes, não apenas habilidades.
Pesquisa e trabalhos em Educação Médica.
O Médico de família entende o paciente. O médico de família, quando professor, entende o aluno.
 
6. A SOBRAMFA na Universidade. [Topo]
 
No segundo semestre de 2000, através do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da UNIFESP- EPM, a SOBRAMFA ofereceu em Disciplina Curricular Opcional, dirigida a alunos do 10 ao 40 ano, a matéria : "Bases da Medicina de Família". A disciplina oferecia inicialmente 20 vagas, mas teve de ser ampliada por uma procura que superou os 70 alunos. Os resultados deste primeiro Curso Curricular em Medicina de Família, recentemente finalizado se encontram em fase de avaliação.
 
7. Concluindo sobre as reflexões. [Topo]
 
A criação institucional da Medicina de Família que originou a SOBRAMFA- Sociedade Brasileira de Medicina de Família, foi motivada pelas próprias solicitações dos pacientes, observada, assimilada e refletida por uma série de profissionais, que procuraram caminhos para uma medicina baseada na pessoa que atendesse às necessidades do paciente.

Desde o início, já se passaram 12 anos, apareceu com clareza a necessidade de aliar os avanços técnicos da medicina, hoje evidências técnicas, com uma postura que compreendesse formação humanística, embasamento ético, e perspectiva antropológica para fazer chegar até o paciente, de modo personalizado, os progressos da medicina.

A grande aceitação que os ensinamentos em Medicina de Família tiveram no meio acadêmico, entre os estudantes, apontaram desde o início, outra caraterística hoje universalmente aceita: a dimensão de educador que o médico de família carrega dentro de si. A Medicina de Família surge hoje como um recurso valioso para a Educação Médica. Em primeiro lugar por centrar-se na Atenção Primária, conhecimento necessário para todo estudante de medicina, e depois pela metodologia própria de ensino que pode colaborar eficazmente no processo de educação médica. A construção de um estilo médico, nos moldes propostos pela Medicina de Família, se apresenta como instrumento de utilidade na formação dos futuros médicos, decorrendo-se a necessidade de uma discussão ampla no setor acadêmico e universitário para implementar este modelo dentro do Curso Médico e da Universidade.

Este modelo será fruto do esforço continuado de todos aqueles que, por serem acadêmicos, tem como permanente preocupação uma melhor formação geral do médico, que atenda às expectativas do paciente, e que consiga resolução satisfatória adaptada à realidade que cada médico tem de enfrentar no seu contexto de trabalho junto da comunidade. Para tal será necessária a colaboração de especialistas, de professores de medicina, de educadores e humanistas, assim como a ajuda da experiência internacional, num trabalho sistemático, harmônico e acadêmico. A Medicina de Família não pretende ocupar o lugar de ninguém no contexto da formação médica. Propõe-se sim a tarefa de integrar os conhecimentos para construir um modelo real e possível dentro da realidade nacional da educação médica, com metodologia própria de uma ciência hoje universalmente aceita. Parece, pois, chegado o momento de frisar a modo de emblema que poderia ler-se nos portões que abrem o século XXI: MF na FM, isto é, Medicina de Família na Faculdade de Medicina.

SOBRAMFA - Sociedade Brasileira de Medicina de Família
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