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O médico perante a morte

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Artigo publicado em 12/2009. Local de publicação: Revista Brasileira de Cuidados Paliativos

Resumo

A nossa vida é feita de histórias. São as vivências as que marcam e definem o nosso perfil e alimentam nossa existência. Somente depois vamos buscar as idéias, o embasamento–o referencial teórico, como dizem os pesquisadores- que sustenta e ordena as vivências.

Talvez por isto, enquanto revisava os tópicos que aqui se recolhem e com os quais venho lidando há muitos anos, uma história veio à minha lembrança. Foi há anos atrás, conversando com um amigo médico que se dedica aos Cuidados Paliativos num país da Europa. Perguntei-lhe como tinha decidido trabalhar nessa área. Ele sorriu e respondeu com uma simplicidade esmagante: “Não pense você que eu tinha vocação para fazer Cuidados Paliativos, ou que isto era o meu sonho. Na verdade, sou geriatra de formação, e o que sempre fiz foi dedicar-me ao meu paciente com afinco. Com o tempo, reparei que ao cuidar do meu paciente até o final, olhei em volta e todos os médicos que tinham participado na vida dos meus pacientes haviam desaparecido no momento em que eles finalizavam a vida. Fiquei sozinho. Na verdade me surpreendi praticando paliativos. Como você vê, foi apenas uma conseqüência da minha dedicação. E ver que ninguém estava lá para fazer isso. Mais nada”.

A história é esclarecedora e serve de advertência. As considerações que aqui se expõem são uma reflexão sobre as vivências pessoais, no momento de lidar com a morte dos pacientes que acompanhamos ao longo da vida. Não são fruto de um estudo teórico, e distam muito de querer ser a opinião de um especialista no tema. São pensamentos em voz alta de quem teve o privilégio de ser testemunha nessas circunstâncias tão especiais que fazem parte da vida de um médico.